sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A Senhora ao subir para as rochas que ladeavam o espaço, escorregou e fracturou a perna esquerda. O Senhor nadou em seu auxílio e deitou-a no solo. Improvisou uma tala de madeira com alguma da lenha que se encontrava amontoada no interior da gruta. De facto, aquele local parecia ser habitado. Vislumbravam-se no chão vestígios de pequenas fogueiras acesas e ao longo da escadaria a iluminação era notória.
A Senhora permaneceu na gruta, enquanto o Senhor correu em busca de ajuda. Ao chegar próximo da aldeia, bateu em todas as portas que encontrou e só na última é que vislumbrou alguém. Correu até ao aldeão e, com imensa dificuldade, pediu-lhe ajuda. Este não o conseguia perceber. Só quando o Senhor recorreu a linguagem gestual é que o este respondeu afirmativamente ao seu pedido. Foram os dois até uma espécie de hospital local, a quatro quilómetros dali. Fizeram todo o percurso a pé por entre curvas e mais curvas. Finalmente chegaram ao local desejado. Para grande alegria e alívio do Senhor encontrava-se de serviço uma enfermeira, por sinal, americana. Este agradeceu o auxílio do aldeão e explicou o que se passava com a sua mulher. Não tardou um pedido de socorro ao centro de resgate local. Foi uma operação relativamente simples e que levou a Senhora para o hospital da cidade mais próxima.

Regressaram a casa, após o extenso passeio, ainda um pouco fatigados. Tinham na mesa da sala de jantar a refeição servida e a imponente lareira acesa. O ambiente era extremamente acolhedor e proporcionara umas boas horas de conversa e entretenimento.
Nos seis dias seguintes o ritual repetiu-se. O Senhor e a Senhora levantavam-se cedo, tomavam um duche rápido e desciam para o pequeno – almoço. Logo que se despachavam, deixavam a habitação e iam explorar as povoações em redor.
Numa das suas muitas idas, descobriram algo de muito interesse e resolveram investigar. Tratava-se, tão-somente, de uma pequena gruta aparentemente inacessível. Encontrava-se abrigada por entre a folhagem e os ramos das árvores. O casal para a alcançar teve de pedir a um nativo, com bastante dificuldade, uma catana emprestada. Depois de a conseguir obter, o Senhor desbravou caminho e conseguiram penetrar no seu interior. Já lá dentro, desceram pelas suas escadas intermináveis e alcançaram o primeiro degrau. Estavam agora a vinte e cinco metros da superfície terrestre. Foi precisamente aqui que se depararam com uma autêntica obra-prima da natureza selvagem, uma grandiosa cascata de água doce. O Senhor e a Senhora despiram as suas roupas e mergulharam nas suas águas cristalinas. Deram longas braçadas no lago que se estendia de um lado ao outro da gruta.

sábado, 14 de janeiro de 2012

No dia seguinte, o Senhor e a Senhora acordaram já tarde e logo almoçaram. Durante o decorrer da tarde maravilhosa que se apresentava, aproveitaram para passear pelas redondezas e namorar.
Percorreram uns cinco quilómetros a pé e chegaram, finalmente, ao cimo do pequeno monte envolvente. A caminhada tinha sido cansativa, mas valera a pena. A vista que se vislumbrava do alto era algo de transcendente.


A Senhora tocou na campainha do antigo portão e logo apareceu uma senhora com os seus sessenta e cinco anos de idade. Recebeu-os e mandou-os entrar. Já dentro de casa, ela e o marido deram-lhes as boas-vindas e indicaram-lhes qual seria o seu quarto nos próximos dias.
Após deixarem as malas, desceram até ao varandim onde os esperava uma mesa recheada de iguarias regionais e uma vista absolutamente sublime.
Conversaram durante as duas horas antes do jantar. Falou-se sobre a extensa viagem, o imenso território chinês e a vida naquele local. O Senhor fez questão de frisar os episódios ocorridos no interior do autocarro, das duas galinhas e da sujidade dos três camponeses. O casal riu-se e a Senhora indignou-se. Voltou-se para o marido e questionou-o sobre o porquê de o terem feito. Este explicou-lhe que aquele tipo de situações, que tinham presenciado, eram absolutamente normais ocorrer no interior do país.
O casal referiu, ainda, que era costume durante a viagem de autocarro um dos pneus rebentar. As estradas encontravam-se num estado lastimável e existiam buracos por todo o lado. Para lá deste facto, o caminho era extremamente sinuoso e a perícia dos motoristas não era a melhor.
Depois de contadas todas as peripécias da longa viagem, falou-se da vida do casal naquele lugar e do enorme território que era o chinês. A conversa alongou-se pelo jantar e noite dentro. Os Senhores bebiam um simples uísque e fumavam ambos um agradável charuto havano. As Senhoras deliciavam-se com um requintado licor de canela.
Foi já muito perto das quatro da manhã locais que se foram deitar, não sem antes provarem um chá tradicional.
O Senhor e a Senhora cumprimentaram o casal idoso, recriminaram o jovem e lá se mudaram. A viagem devia agora decorrer de forma mais tranquila. E, de facto, até decorreu. O único senão foi a entrada de três camponeses duas paragens adiante. Enquanto entravam para o interior, já se sentia o cheiro nauseabundo das suas roupas. Era um odor fortíssimo a estrume e a esterco. Felizmente para o Senhor e para a Senhora que o autocarro tinha as diversas janelas todas abertas. O ar sempre circulava e o cheiro não era tão intenso.
O objectivo da viagem não era o turismo em si, mas sim a descoberta da vida no interior do território chinês.
Durante a mesma, poderam observar os vários campos de arroz cultivados e a população no exercício da actividade agrícola.
Chegados ao seu local de destino, deixaram o autocarro e recolheram as suas malas. O Senhor tinha consigo um mapa da região e foi por este que se guiou para se dirigir ao pequeno albergue. Pelo caminho encontrou miúdos a brincar nas pequenas ruelas, idosos sentados nas soleiras das portas e mulheres a lavar as suas roupas num pequeno riacho. Ao fim de quinze minutos encontrou -o. Era uma simples habitação com os seus quatro quartos e uma sala e casa de banho comuns. Um dos pormenores interessantes era o bar construído na antiga cozinha. De um tamanho gigantesco, quando comparado com o restante. Tinha no seu interior variadíssimas garrafas de tudo quanto era alcoólico, maços de tabaco a cobrir todo o tecto e um armário com diversos exemplares de caixas de fósforos expostos. Havia de tudo, dos charutos havanos a um licor mais sofisticado. A casa era propriedade de um casal holandês, que se tinha mudado para aquele lugar aos sessenta e dois anos de idade. Um verdadeiro vício para os amantes de uma boa bebida e de um bom livro. Era no bar se encontrava a biblioteca de família, com diversos livros empilhados no chão e nas variadíssimas estantes. Os proprietários eram apreciadores de literatura alemã, espanhola, americana e sul-americana.
Ao sexto dia, resolveram sair da capital e ir explorar o interior do país. Conseguiram um voo, nesse mesmo dia, para uma cidade chinesa a novecentos e noventa quilómetros dali. O Senhor não pretendia permanecer na calorosa cidade. Foram de autocarro até uma aldeia próxima, onde tencionavam ficar os últimos nove dias. Durante a interminável viagem, o autocarro ia parando em todas as aldeias que iam aparecendo ao longo do percurso. Muitos eram os passageiros que entravam e saíam. O Senhor e a Senhora iam sentados na parte de trás, na companhia de um casal já idoso. O casal levava consigo duas malas enormes e, ainda, em cima dos joelhos, duas galinhas poedeiras. Estas encontravam-se soltas e, de vez em quando, voavam para junto do Senhor e do rapaz da frente. Este, quando as sentia por perto, virava-se para trás e muito barafustava com o casal. O Senhor e a Senhora não conseguiam aceitar tal situação. O Senhor tentou convencer o jovem a acalmar-se, mas este não lhe ligou nenhuma. Chegou mesmo a pontapear uma das galinhas, quando esta se aproximou do seu nariz.
O Senhor e a Senhora chocados com o sucedido, decidiram mudar de lugar. Um casal de namorados saíra entretanto e deixara vagos dois lugares próximos do motorista.
Seriam dois extensos meses de muita aventura e algum romance. A jornada iniciar-se-ia pelo magnífico país que era a China. Percorreriam, ainda, países tão desconhecidos como o Japão e a Índia. Deveriam visitar, igualmente, o Egipto, o Quénia e Moçambique.
Do aeroporto local partiram em direcção a terras de Mao Tsé-Tung. Após a longa viajem, finalmente, aterraram na capital Pequim. Chegaram rente ao anoitecer. Logo a seguir ao recolher das respectivas bagagens, encaminharam-se para a entrada do moderno aeroporto. Foi precisamente aqui que apanharam um táxi que os conduzisse ao centro da cidade. Tinham estadia marcada num dos melhores hotéis da capital. A reserva fora efectuada pelo Senhor, com três meses de antecedência. Permaneceram em território chinês durante quinze dias.
Os cinco primeiros, foram aproveitados para um conhecimento alargado da imensa cidade. Passearam pelos vários monumentos, acessíveis ao público em geral e admiraram os enormes arranha-céus que preenchiam todo o espaço.
Foram até um mercado tradicional e decidiram experimentar a gastronomia local. Provaram os verdadeiros sabores orientais e adoraram.
Decorridos cinco anos de namoro, resolveram-se a casar. Os preparativos duraram dois longos meses. Por entre a escolha da Igreja e do local para o jantar, decidiram-se por uma capela perto de casa e pela realização do jantar e ceia no antigo palacete. O casamento realizou-se num Sábado ao final da tarde, pelas dezanove horas. Foi uma cerimónia muito bonita. O jantar decorreu nos dois salões, com uma grandiosa mesa disposta ao longo de todo o espaço com todas as iguarias regionais e três bons vinhos a serem servidos. Foram convidados os antigos alunos do Senhor, alguns professores da Faculdade, o seu amigo e, ainda, as amigas da Senhora.
No final da noite, o Senhor e a Senhora despediram-se dos convidados e embarcaram na grande viajem das suas vidas.
Era Verão e estava um calor abrasador. A Senhora, entretanto, mudara-se de malas e bagagens para o palacete do seu amado. Viviam agora juntos. Além de partilharem os muitos gostos em comum, partilhavam agora o mesmo espaço.
A Senhora fizera algumas alterações na habitação. Mandou fechar a parte desabitada e ampliar as duas salas de estar. Eram agora dois autênticos salões. Podia dar as suas festas, com que sempre sonhara. Tinha levado consigo, para a casa grande, a sua empregada e o seu mordomo.
O Senhor podia agora gabar-se por ter, de novo, uma empregada e, ainda, um mordomo.
Demorou a habituar-se, mas com o tempo lá assimilou a ideia.
Aquela casa, finalmente, ganhou a vida merecida. E continuou com a enorme varanda, com a soberba vista sobre o enorme lago.
O amigo do Senhor era visita assídua lá de casa. O Senhor era novamente uma pessoa feliz.
Tinha, de novo, um grande amor na sua vida e o seu companheiro a seu lado.
Longos eram os serões a três, num dos dois salões, com cartas, conversa e muito álcool.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A Senhora lia um pouco na varanda da habitação, quando o tempo permitia, sempre acompanhada de um delicioso copo de vinho. De vez em quando, recebia a visita das suas amigas de infância. Bebiam uma chávena de chá e conversavam sobre os mais variados assuntos.
O Senhor refugiava-se em casa. Trancava-se no seu escritório e escrevia durante longas horas. Por entre as suas muitas composições, bebia um pouco do seu estimado vinho e fumava um dos seus muitos cigarros.
Durante o serão, actualizava o seu diário e lia um dos seus livros de cabeceira.
Nessa noite, o Senhor fez questão de oferecer o jantar em sua casa. Serviu uma deliciosa perna de peru assada no forno, acompanhada de umas batatas assadas e de um esplêndido vinho tinto.
Após o jantar, decidiram ir apreciar a bela noite de luar que se apresentava. O céu encontrava-se completamente estrelado.
Nos dias seguintes, o ritual manteve-se. O Senhor ia correr manhã cedo e dirigia-se ao centro da cidade para esperar a sua amada. Esta vinha ter consigo e almoçavam juntos. Após o almoço, aproveitavam para passear e namorar. A meio da tarde ia cada um para sua casa.
Uma hora mais tarde apareceu a Senhora. Cumprimentou o Senhor e ocupou o seu lugar na mesa. Pediram juntos dois cafés e acenderam ambos um cigarro. Foi por entre o muito fumo que leram os diversos jornais diários. Trocaram, igualmente, impressões sobre os livros de que gostavam. A Senhora não dispensava os seus romances de eleição e o Senhor adorava toda a produção literária sul-americana.
Almoçaram ao meio-dia e, em seguida, foram-se embora. Deram um passeio pela floresta envolvente e pararam junto ao afluente do rio. Comeram uns biscoitos, que a Senhora comprara na cidade, e beberam um agradável licor.
Foi precisamente aqui na margem do rio que envolveram os seus corpos nus na mais pura e singela consagração do amor humano. Após o acto, deitaram os seus corpos na erva fresca e acenderam ambos um cigarro. Ouviram o cantar da passarada e o correr apressado do vento nos seus cabelos.
Naquele dia, almoçaram juntos em casa da Senhora. Foi servido um peixe fresco grelhado, acompanhado de um sedutor vinho verde. No decorrer da tarde, a aproximação foi natural e foi já ao cair da noite que se deliciaram num beijo arrebatador. Uns minutos mais tarde, o Senhor naturalmente embaraçado, despediu-se da Senhora e encaminhou-se para casa.
Já em casa, preparou um suave uísque com as suas duas pedras de gelo e deleitou-se no escritório. Aproveitou o longo serão que tinha pela frente para escrever. Quando se apercebeu, estava a redigir um extenso poema. Estava, de facto, apaixonado.
No dia seguinte, acordou cedo e foi correr. Chegado a casa, tomou um duche rápido e dirigiu-se ao centro da cidade. Foi aqui que, já sentado na esplanada do dia anterior, esperou pela Senhora. Fazia, agora, questão de chegar mais cedo.
Almoçava sempre no restaurante de um velho conhecido e, a seguir, ia para sua casa. Permanecia no seu escritório durante cinco longas horas. Escrevia os seus contos juntamente com alguma poesia. Perto das vinte horas, jantava e aproveitava o serão para actualizar o seu diário. Antes de se deitar, fumava um último cigarro e saboreava um delicioso chá de tília.
Foi numa das suas muitas idas ao centro da cidade que encontrou um novo motivo para sorrir. Um dia, encontrava-se sentada numa das muitas esplanadas da praça central uma elegante Senhora. Coincidência das coincidências, era aquela a esplanada que o Senhor frequentava. Aproximou-se da mesa onde se encontrava a Senhora, pediu licença e sentou-se. Não era seu costume adoptar este tipo de atitudes, mas a Senhora despertara-lhe a atenção. Era muito simpática e aparentava uma beleza deslumbrante. Rapidamente simpatizou com esta.
A Senhora bebia uma meia de leite, acompanhada de uma torrada barrada com manteiga e compota de morango. O Senhor pediu um café e acendeu um cigarro. Permaneceram três longas horas a conversar. No decorrer da mesma, aperceberam-se do gosto por literatura e por bons vinhos. Dois dos muitos prazeres que descobriram ter em comum.
O Senhor só aceitou, em definitivo, a sua morte após três longos meses. Foi percebendo, ao longo do tempo, que se encontrava cada vez mais só. Iria agora coabitar com a sua eterna solidão. Os irmãos encontravam-se emigrados e os pais há muito que tinham falecido.
Superados estes três penosos meses, resolveu retomar a sua vida.
Aproveitara, entretanto, para se reformar do ensino. Agora os seus dias começavam com a habitual corrida matinal e uma ida ao centro da cidade. Era aqui que se situavam os grandes cafés e as livrarias que tanto apreciava. Escolhia sempre uma das muitas esplanadas, situadas na praça central, para beber o seu café e fumar um dos seus cigarros. Aproveitava para ler os jornais diários e escrever um pouco.
O Senhor, um dia ao chegar a casa estranhou o facto de Amália não o vir receber. Percorreu toda a casa e não a encontrou. Dirigiu-se ao jardim, chamou pelo seu nome e ninguém lhe respondeu. Ao regressar de novo a casa deparou-se com Amália caída no chão. Não restavam dúvidas, estava morta. No rosto do Senhor as lágrimas escorriam copiosamente. Depressa retirou o corpo do jardim e o deitou na sua cama. Ficou a admirá-lo por uns minutos e logo se lembrou que tinha de lhe preparar o enterro.
O pai do Senhor era um verdadeiro amante do saber e possuía uma cultura geral invejável. Conhecia mais de trinta países e sabia falar, pelo menos, quatro línguas. Não era um homem fiel. Conheceram-se-lhe, oficialmente, duas amantes. Uma relação que manteve com a mãe de Amália, durante os anos de serviço desta lá em casa e um caso esporádico com uma jovem doze anos mais nova.
A mãe do Senhor, sempre fora orientada por uma educação extremamente rígida e conservadora. Entregava-se aos cuidados do lar e dos filhos. Apesar de reconhecer as infidelidades do marido, reivindicava para si todo o amor que lhe era devido.
Repartia os seus dias entre os cuidados domésticos e a jardinagem. Adorava plantar, tratar e cuidar das flores do seu amado jardim.
Fazia questão, ainda, de estar com as suas amigas e na companhia de um bom livro.
O Senhor tinha tido a felicidade de ali nascer e por ali permanecer.
O seu pai nascera numa cidade vizinha, mas ali fizera fortuna. Era proprietário de algumas lojas de pequeno comércio e de alguns armazéns. Quando faleceu, a fortuna foi dividida pelos seus três filhos. Os dois irmãos do Senhor emigraram para o estrangeiro.
Antes de emigrarem, decidiram vender todas as lojas e armazéns. O Senhor ficou com a casa de seu pai.
Os seis quartos do antigo palacete conservavam o cheiro a naftalina e o perfume com que Amália, todas as manhãs, os perfumava.
No escritório encontravam-se novecentos e cinquenta volumes, dispersos pelas várias estantes. Aqui estava, igualmente, uma secretária de madeira maciça com um volumoso pisa-papéis em cima. No canto esquerdo, um candeeiro de prata iluminava todo o espaço. De frente para a secretária, dispunham-se três imponentes cadeiras.
Logo após as sessões, dirigia-se ao seu gabinete. Aqui, comia algo rápido e preparava a sessão da manhã seguinte. Aproveitava, igualmente, para ler a sua correspondência.
O gabinete situava-se no extremo de um pequeno corredor. Estava cheio de livros nas estantes e papéis espalhados por todo o lado.
De facto, um dos seus grandes prazeres era a leitura. Lia três livros numa semana.
O Senhor, aos sessenta e dois anos de idade, já só se deslocava ao Campus para as suas aulas matinais, alguma consulta na biblioteca e resolução de algum problema de última hora.
Assim sendo, a sua manhã começava bem cedo. Ia correr, tomava um duche rápido e seguia para a Universidade. Aproveitava a tarde, já em casa, para redigir a sua habitual reflexão semanal para o jornal local. Algo não muito complexo e, por vezes, demasiado simplista.
Antes de jantar, permanecia duas horas no seu escritório. Aproveitava para pensar, ler e escrever. Outra das suas muitas paixões era a escrita. Escrevia sempre no seu pequeno caderno de apontamentos a lápis. Eram, essencialmente, breves reflexões e alguns rascunhos dos seus contos que um dia tencionava publicar.
Ia dar aulas aos seus alunos todas as manhãs. Considerava-se um professor exemplar. Faltava poucas vezes e entrava sempre a horas nos portões da Universidade.
Bebia o seu café matinal e fumava um dos seus cigarros. Poucos segundos passados das oito e cinquenta da manhã, entrava no enorme anfiteatro sempre repleto. Raramente tinha menos de noventa e cinco alunos prontos a ouvi-lo discursar e narrar as inúmeras histórias que tinha para contar. As sessões duravam quatro horas, com meia hora de intervalo.
O Senhor perto de sua casa, acendeu um cigarro e passou as mãos completamente ensopadas pelos seus negros cabelos.
Ao entrar no hall, pendurou o sobretudo e deixou na chapeleira o seu chapéu. De seguida, dirigiu-se a Amália. Amália era a criada de família. Tinha ido lá para casa juntamente com a sua mãe e o seu pai.
O Senhor desejava para o seu jantar uma simples sopa de legumes frescos. Era apreciador de bons pratos e de bons vinhos.
Naquela noite jantou sozinho. Raramente recebia visitas para almoçar ou jantar.
Amália almoçava e jantava, igualmente, sozinha. De vez em quando, recebia a visita de uma prima. Era, agora, a única família que lhe restava.
O Senhor muito se alegrava com a companhia que esta lhe fazia. Era com Amália que muitas vezes conversava e desabafava. Não eram conversas muito interessantes, como fazia questão de reconhecer, mas sempre serviam para exteriorizar tudo aquilo que sentia.
Eram tempos extremamente solitários, os que estava a atravessar.
Nessa tarde, a caminhada tinha sido solitária e demasiado introspectiva. Acompanhavam os seus passos, os bafos despojados de um cigarro ainda aceso. Finalmente, ao longe, avistara a casa do seu amigo.
Entrou pelas traseiras, como era já seu costume, com o andar leve e cansado. Tirou o agasalho, pendurou-o no velho bengaleiro e dirigiu-se para a zona mais acolhedora da habitação. A sala de estar tinha a antiga lareira acesa e aproveitou para se aquecer, enquanto se deliciava com um tentador licor caseiro. O companheiro preparou um uísque com duas pedras de gelo e acendeu um dos seus muitos charutos. Por entre o álcool e o fumo, abordaram os mais diversos temas.
A tarde continuava excessivamente chuvosa e, no seu regresso, a lama persistia teimosa. Sentia-se agora triste por ter deixado o amigo sozinho, entregue a uma solidão tão sua. Este vivia só há catorze longos anos.
Sabia bem como se sentia, uma vez que também se encontrava sozinho desde a morte da sua esposa.
Foi num Domingo excessivamente chuvoso e de morosas trovoadas que sentiu o bafo do seu amargo cigarro penetrar o seu sensível olfacto.
Vestia um sobretudo azul-escuro, umas calças de fazenda e calçava um par de sapatos castanhos engraxados. Trazia, como apoio da sua mão direita, a antiga bengala e, ainda, o seu chapéu.
O Senhor era professor da disciplina de História da Europa Moderna, na Universidade local.
Naquela tarde, regressava do seu passeio habitual. Tinha ido visitar o amigo de longa data, residente na outra margem do lago. Um antigo combatente da Segunda Guerra Mundial, de barba já enraizada e cabelos grisalhos.
Muitas eram as tardes de conversa e amena cavaqueira nas cadeiras de madeira esbranquiçada da varanda, sempre acompanhadas de um uísque e de um charuto havano. Conversava-se sobre vários assuntos da actualidade e do antigamente.
Característica comum destes dois camaradas era o gosto por História e Literatura.
Quis o destino que se conhecessem durante o decorrer da Segunda Grande Guerra, enquanto jovens completamente loucos de desejos, sonhos e ambições.
Frequentaram ambos a mesma Companhia e tiveram como Capitão o mesmo Ser obsoleto, intragável e animal. Enfim, uma besta!
Desses tempos de juventude, guardavam inúmeras memórias que mereciam ser recordadas.